Clarice Lispector (1920-1977), reconhecida por suas obras que exploram o interior das personagens, por meio de uma dicção intimista e sensacionista, dedicou-se à escrita de contos, crônicas e romances, além de atuar como entrevistadora e ghost writer. Grande parte de suas personagens é de mulheres – jovens, de meia-idade e idosas – que, por meio de seus dilemas instaurados em situações prosaicas, vivenciam reflexões sobre seu estado de pertença, bem como a melancolia e o mergulho em suas sensações.
Partindo desse pressuposto, este estudo se debruça sobre a narrativa de um conto clariceano publicado na obra A legião estrangeira (1964), intitulado “Viagem a Petrópolis”. Vale ressaltar que esse mesmo conto fora republicado sob novo título na obra Felicidade clandestina (1971), sendo então chamado de “O grande passeio”. Utilizar-se-á como ponto de análise a primeira nomenclatura.
A narrativa de “Viagem a Petrópolis” conta a história de Mocinha: “uma velha sequinha que, doce e obstinada, não parecia compreender que estava só no mundo” (Lispector, 2020, p. 65). Mocinha, que, em verdade, chamava-se Margarida, perdera toda a sua família (marido e filhos). Por conta disso, viera do Maranhão ao Rio de Janeiro, a fim de internar-se em um asilo com a ajuda de uma senhora “muito boa”.
A velhice de Mocinha é construída literariamente por meio de recursos poéticos, tais como a antítese, o que, em todo o percurso da narrativa, coloca em xeque a contradição entre a valorização da juventude, diante do declínio da velhice, como se pode verificar na própria caracterização da personagem:
O corpo era pequeno, escuro, embora tivesse sido alta e clara. Tivera pai, mãe, marido, dois filhos. Todos aos poucos tinham morrido. Só ela restara com os olhos sujos e expectantes quase cobertos por um tênue veludo branco.
Quando lhe davam esmola davam‑lhe pouca, pois era pequena e realmente não precisava comer muito. Quando lhe davam cama para dormir davam‑na estreita e dura porque Margarida fora aos poucos perdendo volume. Ela também não carecia de muito: sorria e balançava a cabeça (Lispector, 2020, p. 65‑66).
Por meio da caracterização de Mocinha, é possível notar as condições de subsistência na qual vive e a forma como definhava dia a dia, dada a precariedade com a qual era tratada por todos. A personagem, ao chegar ao Rio de Janeiro e não conseguir instalar-se em um asilo, passa a viver de casa em casa: “Lá estava uma nódoa amarelada de um ovo que comera há duas semanas. E as marcas dos lugares onde dormia. Achava sempre onde dormir, casa de um, casa de outro” (Lispector, 2020, p. 65).
Entretanto, a narrativa de “Viagem a Petrópolis” centra-se em uma casa onde Mocinha instala-se: “Dormia agora, não se sabia mais por que motivo, no quarto dos fundos de uma casa grande, numa rua larga cheia de árvores, em Botafogo” (Lispector, 2020, p. 66).
Tamanha era a situação de negligência e abandono com os quais a família que acolhia Mocinha a tratava, que chegavam a indignar-se do pequeno deleite da idosa: passear. “Achavam graça que uma velha, vivendo de caridade, andasse a passear” (Lispector, 2020, p. 66).
Mocinha viveu com essa família de Botafogo por certo tempo, até constatarem terem “acolhido” a senhora por tempo demais – já era momento de achar uma nova moradia para Mocinha, uma vez que a consideravam um estorvo. Diante disso, a família decide mandá-la para a casa de outro parente, Arnaldo, que vivia com a esposa alemã e o filho em Petrópolis:
Sua vida corria assim sem atropelos, quando a família da casa de Botafogo um dia surpreendeu‑se de tê‑la em casa há tanto tempo, e achou que assim também era demais. De algum modo tinham razão. Todos lá eram muito ocupados, de vez em quando surgiam casamentos, festas, noivados, visitas. E quando passavam atarefados pela velha, ficavam surpreendidos como se fossem interrompidos, abordados com uma pancadinha no ombro: “olha!”. Sobretudo uma das moças da casa sentia um mal‑estar irritado, a velha enervava‑a sem motivo. Sobretudo o sorriso permanente, embora a moça compreendesse tratar‑se de um ricto inofensivo. Talvez por falta de tempo, ninguém falou no assunto. Mas logo que alguém cogitou de mandá‑la morar em Petrópolis, na casa da cunhada alemã, houve uma adesão mais animada do que uma velha poderia provocar (Lispector, 2020, p. 66‑67).
A noite que antecede a partida de Mocinha causa-lhe um misto de sensações: fulgor, ansiedade, medo e excitação. Feito uma criança, sente que “[...] o coração desenferrujava todo seco e descompassado, como se ela tivesse engolido uma pílula grande sem água. [...] A excitação do passeio prometido e a mudança de vida, de repente aclaravam-lhe algumas ideias” (Lispector, 2020, p. 67). Em meio a essa profusão de sensações, Mocinha rememora sua vida, devaneando como se um filme passasse diante de seus olhos:
A começar pelo filho atropelado, morto debaixo de um bonde no Maranhão – se ele tivesse vivido no tráfego do Rio de Janeiro, aí mesmo é que morria atropelado. Lembrou‑se dos cabelos do filho, das roupas dele. Lembrou‑se da xícara que Maria Rosa quebrara e de como ela gritara com Maria Rosa. Se soubesse que a filha morreria de parto, é claro que não precisava gritar. E lembrou‑se do marido. Só relembrava do marido em mangas de camisa. Mas não era possível, estava certa de que ele ia à repartição com o uniforme contínuo, ia a festas de paletó, sem falar que não poderia ter ido ao enterro do filho e da filha em mangas de camisa. A procura do paletó do marido ainda mais cansou a velha que se virava com leveza na cama (Lispector, 2020, p. 67‑68).
Mocinha passa a sua última noite na casa de Botafogo entre reminiscências, devaneios e momentos de lucidez, perdendo, pela primeira vez, a hora. Ao adentrar no automóvel, experiencia o sarcasmo dos jovens que a levariam a Petrópolis: “[...] o rapaz e as moças se surpreenderam com seu ar alegre e com os passos rápidos. ‘Tem mais saúde do que eu!’, brincou o rapaz. À moça da casa ocorreu: ‘E eu que até tinha pena dela’” (Lispector, 2020, p. 68). Ainda antes da partida do carro, o rapaz fala ironicamente para Mocinha: “– Não vá enjoar, vovó” (Lispector, 2020, p. 69).
Nesse momento da narrativa, a velhice se evidencia por meio de construções paradoxais: de um lado, o riso silenciado de Mocinha, que aceita seu destino e, de outro, o riso solto das moças que, visivelmente, não se preocupam com a real situação de abandono da idosa:
As moças riram, principalmente a que se sentara na frente, a que de vez em quando encostava a cabeça no ombro do rapaz. Por cortesia, a velha quis responder, mas não pôde. Quis sorrir, não conseguiu. Olhou para todos, com olhos lacrimejantes, o que os outros já sabiam que não significava chorar. Qualquer coisa em seu rosto amorteceu um pouco a alegria da moça da casa e deu‑lhe um ar obstinado. A viagem foi muito bonita (Lispector, 2020, p. 69).
No correr da viagem, Mocinha começa a se sentir mal, ao mesmo tempo que rememora lembranças do marido. Passado e presente começam a se fundir no fio da narrativa:
Foi quando Mocinha começou finalmente a não entender. Que fazia ela no carro? Como conhecera o marido e aonde? Como é que a mãe de Maria Rosa e Rafael, a própria mãe deles, estava no automóvel com aquela gente? Logo depois acostumou‑se de novo (Lispector, 2020, p. 70).
Enfim, a viagem finda e chegam a Petrópolis. Os jovens plenamente despreocupados com o estado físico e emocional de Mocinha são incapazes de, ao menos, deixá-la na porta da casa do irmão Arnaldo.
[...] Olha, Mocinha, você entra por aquele beco e não há como errar: na casa de tijolo vermelho, você pergunta por Arnaldo, meu irmão, ouviu? Arnaldo. Diz que lá em casa você não podia mais ficar, diz que na casa de Arnaldo tem lugar e que você até pode vigiar um pouco o garoto, viu (Lispector, 2020, p. 70).
Com isso, os jovens “descartam” Mocinha e partem. A idosa vai até a casa de Arnaldo, sendo recebida pela esposa alemã, uma vez que Arnaldo não está presente. Enquanto a esposa alimentava o filho com mingau de aveia, pão torrado e manteiga, Mocinha sentia-se fraca e adoecia, desejando um pouco de café para se recompor.
Havia uma briga implícita entre a família: aqueles que moravam em Botafogo tinham rusgas com os que moravam em Petrópolis. Desse modo, a esposa alemã, inicialmente, não acredita que a família de Botafogo havia enviado Mocinha aos seus cuidados. Nesse ínterim, a alemã serve-se de comida, assim como ao seu filho, e não oferece à Mocinha, que segue adoecendo, sedenta por um pouco de café. Quando Arnaldo, enfim, regressa e sabe da chegada de Mocinha, é veementemente contra a estadia da idosa em sua casa, oferecendo-lhe dinheiro para que vá embora:
- Não pode ser, aqui não tem lugar não.
[...] E agora estou muito ocupado! Eu lhe dou dinheiro e você toma o trem para o Rio, ouviu? volta para a casa da minha mãe, chega lá e diz: casa de Arnaldo não é asilo, viu? aqui não tem lugar. Diz assim: casa de Arnaldo não é asilo não, viu! Mocinha pegou o dinheiro e dirigiu‑se à porta. Quando Arnaldo já ia sentar para comer, Mocinha reapareceu:
- Obrigada, Deus lhe ajude! (Lispector, 2020, p. 72).
Mais uma vez, abandonada e sozinha, sem amparo algum, Mocinha volta a pensar em sua família, “não sentia a menor saudade. Mas lembrava-se” (LISPECTOR, 2020, p. 73). Então, dirige-se para a estrada, afastando-se da estação. Fazia-o como se alguém lhe esperasse, ou como se estivesse cometendo um ato ilícito de quem busca liberdade. Em verdade, gostaria de passear um pouco.
Sedenta, Mocinha encontra um chafariz, onde uma mulher negra e descalça enchia uma lata d’água. Quando se percebe sozinha, Mocinha bebe da água do chafariz. Sentindo-se “saciada e espantada”, continua a passear pela estrada de Petrópolis, mantendo os olhos abertos, tal como um olhar inaugural. Sobe a estrada íngreme e vai ao encontro de seu destino: a morte.
A estrada subia muito. A estrada era mais bonita que o Rio de Janeiro, e subia muito. Mocinha sentou‑se numa pedra que havia junto de uma árvore, para poder apreciar. O céu altíssimo, sem nenhuma nuvem. E tinha muito passarinho que voava do abismo para a estrada. A estrada branca de sol se estendia sobre um abismo verde. Então, como estava cansada, a velha encostou a cabeça no tronco da árvore e morreu (Lispector, 2020, p. 73‑74).
Ao finalizar a leitura do conto “Viagem a Petrópolis”, de Clarice Lispector, e partindo dos pressupostos levantados no início deste estudo acerca do processo de envelhecimento e do etarismo, ressalta aos olhos o seguinte questionamento: Como a velhice é construída por meio do texto literário?
Nota-se que essa construção se dá por intermédio dos dilemas em torno da personagem central, Mocinha, bem como de sua relação com as pessoas que a “acolhiam”, uma vez que não possuía qualquer familiar ou amigo que pudesse lhe prestar cuidados. Observa-se que, desde a caracterização da personagem – velha, pobre, pequena e sozinha –, até a forma como fora tratada pela própria família, e pelas pessoas que diziam “acolhê-la”, evidencia-se um alto índice de negligência e violência.
Desse modo, podem-se elencar 16 momentos da narrativa de “Viagem a Petrópolis” nos quais o etarismo é elucidado no fio do enredo: 1) Mocinha vivia de casa em casa; 2) Morava em um quartinho nos fundos, em contraponto à casa grande; 3) Mocinha era velha, tinha um corpo pequeno; 4) A protagonista perdeu toda a sua família; 5) Quando lhe davam uma cama, era dura; 6) Vinda do Maranhão, pretendia ir para um asilo; 7) Depois de um tempo morando na casa de Botafogo, Mocinha começa a estorvar a família; 8) Decidem mandá-la para Petrópolis, para a casa de Arnaldo; 9) Os jovens tratam Mocinha com ironia e sarcasmo ao levá-la a Petrópolis; 10) Há risos de chacota dos jovens; 11) Deixam-na longe da casa de Arnaldo, sozinha; 12) Quando chega à casa de Arnaldo, não lhe servem comida nem café; 13) Arnaldo diz que sua casa não é asilo e a manda embora com um pouco de dinheiro; 14) Mocinha sente-se, mais uma vez, descartável e sem utilidade; 15) Anda pela estrada de Petrópolis e bebe água de um chafariz por sentir-se mal; 16) Morre sozinha encostada em um tronco de árvore.
Com base na leitura aprofundada do conto clariceano, este estudo propõe uma atividade intradisciplinar sobre a questão do etarismo.